Produção de veículos tem pior setembro desde 2003

As montadoras fabricaram no Brasil em setembro 174,2 mil veículos, pior resultado para o mês dos últimos 12 anos, de acordo com dados divulgados ontem pela Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores). Esse número, que abrange automóveis, picapes, caminhões e ônibus, só não fica abaixo das 161,8 mil fabricadas no mesmo período de 2003, e representa 42% menos do que o produzido em igual mês de 2014, quando saíram das linhas de montagem 300,8 mil unidades. Nos primeiros nove meses de 2015, a indústria ainda não chegou à marca dos 2 milhões de veículos – fabricou só 1,905 milhão, total 20% inferior ao do mesmo período do ano passado.
 
O pé no freio da produção se explica pelas fracas vendas. No acumulado deste ano, foi emplacado 1,954 milhão de unidades, 22,6% menos que de janeiro a setembro de 2014. Os dados do setor, que têm puxado para baixo os indicadores industriais do País, se devem a vários fatores, dentre os quais a redução no crédito para aquisição de veículo pelos consumidores. Nos últimos 12 meses até agosto, a carteira dos bancos para essa finalidade teve queda real (descontada a inflação) de 17%, assinala o economista do Iedi (Instituto para o Estudo do Desenvolvimento Industrial), Rafael Fagundes Cagnin.
 
Ele avalia ainda que, além das restrições impostas pelas instituições financeiras, há agora uma “ressaca” de compras, depois que passou o período de incentivos tributários – redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) –, em que muita gente trocou de carro. A crise que se abate sobre o mercado de trabalho, com o aumento do desemprego, também ajuda a reduzir a demanda. “A conjuntura negativa faz com que as famílias adiem a decisão de compra”, diz. Do lado das empresas, a perda de dinamismo da economia leva ao adiamento nas decisões de investimento, segundo Cagnin. Isso explica o tombo, por exemplo, na produção e vendas de caminhões, que amargam, respectivamente, retração de 47,2% e 44% no acumulado do ano frente a igual período de 2014.
 
O presidente da Anfavea, Luiz Moan, também considera que o baixo nível de confiança do consumidor e dos investidores, por causa do cenário econômico, reflete no mercado automotivo. Apesar disso, avalia que o ritmo de vendas de julho a setembro será mantido no quatro trimestre, indicando estabilidade. É o que se pode chamar da “região do fundo do poço”, na avaliação do consultor automotivo Valdner Papa.
 
EXPECTATIVAS – Apesar da estabilidade prevista, o cenário não é animador. Tanto que a Anfavea reviu para baixo suas projeções para 2015. Agora estima que o segmento fechará o ano com 2,54 milhões de unidades de automóveis, picapes, caminhões e ônibus novos vendidos, retração de 27,4% ante os 3,498 milhões de 2014. Desde junho, vinha mantendo que a queda seria de 20,6%. Houve também revisão do cálculo de produção, que deve recuar 23,2% (a projeção anterior era de -17,6%). A retração é puxada pelos veículos pesados (caminhões e ônibus), que devem encolher 45,4% em vendas. Antes, previa-se queda de 41%. Era esperada a piora nos prognósticos, já que os analistas vinham apontando que a economia regrediria semana a semana, destaca o consultor automotivo Julian Semple.
 
A boa notícia vem do front externo. As exportações tiveram seus números revisados para cima, devendo alcançar dois dígitos no fim do ano, chegando a 12,2% de alta (previsão de 375 mil unidades embarcadas no ano). A estimativa antes era de aumento de 1,1%. Isso por causa do dólar (na faixa de R$ 4) favorável. Neste ano até setembro, já são 293,4 mil unidades, 12,3% mais que no mesmo período de 2014. O volume, no entanto, representa pouco mais de 10% das vendas no mercado interno. É bem menos, por exemplo, que em 2005, quando as exportações representavam 40% da comercialização no País.
 
DÁ PARA PIORAR – Os resultados são ruins, mas podem piorar, avalia Moan. Estudo da Anfavea aponta que, se o governo resolver elevar em um ponto percentual o IPI, haverá queda de 3% nas vendas. Por outro lado, se houver redução de um ponto percentual na alíquota, segundo o dirigente, as vendas teriam impulso de 2,5%.
 
 
Setor soma 24,4 mil em PPE na região para ajustar atividade

 
O fraco desempenho das vendas de veículos, que faz com que o setor se mantenha com alto volume de carros em estoque, tem levado as montadoras a adotarem medidas para ajustar a produção à demanda. Isso explica porque empresas como a Mercedes-Benz, Volkswagen e Ford fecharam acordo para terem o PPE (Programa de Proteção ao Emprego) em suas fábricas na região – com 24,4 mil trabalhadores incluídos nesse programa, que prevê a redução da jornada e dos salários, com metade da diminuição da renda sendo complementada com recursos do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador).
 
Além disso, outros 4.320 estão em lay-off (suspensos temporariamente), somando essas três empresas mais a General Motors (com 756 já afastados e outros 1.600 que ficam em casa a partir desta semana até março).
 
Os dados da Anfavea revelam que, apesar das paradas na produção e da suspensão de trabalhadores, os estoques de carros continuam altos. Em setembro, havia 346,9 mil veículos nas concessionárias ou nos pátios das montadoras, o que representa 52 dias para comercialização, mesmo número de dias já registrado em agosto.
 
Os números da associação mostram também que o segmento segue enxugando postos de trabalho, apesar dessas medidas para evitar os cortes. Em setembro, a indústria (incluindo montadoras e fabricantes de máquinas agrícolas) estava com 133,6 mil empregos, menor nível desde 2009, no auge da crise financeira global, quando contabilizou 121,2 mil postos. Em um ano, foram eliminados 14,2 mil empregos.